O Brasil, após mais de 30 anos de queda consistente no tabagismo, registra agora um aumento real no número de fumantes, especialmente entre jovens e crianças. Este retrocesso é impulsionado pelos cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes, e representa um novo e complexo desafio para a saúde pública. A reversão de um progresso histórico acende um alerta para autoridades e especialistas, que buscam fortalecer as estratégias de combate à dependência da nicotina e suas graves consequências à saúde.
Como o Uso de Vapes Aumenta entre Jovens e Adultos?
Dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), realizada pelo IBGE, revelam um salto significativo na experimentação de cigarros eletrônicos entre adolescentes. O percentual de estudantes brasileiros de 13 a 17 anos que já utilizaram vapes subiu de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. Entre adultos, o uso de vapes também cresceu, passando de 11,3% em 2019 para 13,1% em 2024, segundo o Vigitel 2024. O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) indicou que 8,7% dos adolescentes de 14 a 17 anos relataram uso de dispositivos eletrônicos para fumar no último ano, enquanto o tabagismo convencional nessa faixa etária ficou em 1,7%. Esse cenário contribuiu para um aumento de 25% nas taxas de tabagismo no Brasil entre 2023 e 2024, elevando a prevalência de 9,3% para 11,6%.
Quais os Riscos à Saúde Associados aos Vapes?
Apesar de sua comercialização, fabricação e importação serem proibidas no Brasil desde 2009, com a regra reafirmada pela Anvisa em 2024, os vapes são facilmente encontrados e adquiridos em redes sociais, sites e no comércio informal. A indústria utiliza estratégias de design que camuflam os dispositivos, fazendo-os parecer acessórios tecnológicos inofensivos, o que atrai especialmente os jovens.
Especialistas alertam que muitos vapes entregam concentrações de nicotina superiores a um maço inteiro de cigarros convencionais, facilitando a dependência rápida. Além da nicotina, esses dispositivos contêm mais de 2 mil substâncias químicas, incluindo:
- Metais pesados: como níquel, chumbo e zinco.
- Compostos tóxicos: formaldeído e acroleína.
Essas substâncias podem causar lesões pulmonares agudas como EVALI (lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos ou produtos de vaping) e bronquiolite obliterante, conhecida como ‘pulmão de pipoca’. A exposição precoce à nicotina também pode predispor a transtornos depressivos e de ansiedade, afetando o desenvolvimento cerebral de adolescentes.
Quais as Medidas de Fiscalização e Prevenção Contra Vapes?
Diante do avanço do tabagismo e do uso de vapes, as autoridades brasileiras intensificam as ações de combate. As principais iniciativas incluem:
- Apreensões: Entre janeiro e fevereiro de 2026, a Receita Federal apreendeu 238.801 unidades de cigarros eletrônicos, uma média de mais de 4 mil dispositivos por dia.
- Acordo de Fiscalização: Em fevereiro de 2026, a Anvisa e o Ministério Público Federal (MPF) assinaram um acordo para intensificar a fiscalização e o enfrentamento ao comércio ilegal de vapes.
- Projeto de Lei: Um projeto de lei que transforma as normas da Anvisa em lei federal, endurecendo punições e ampliando a fiscalização, avança no Congresso em 2026. A proposta inclui a proibição de vendas a menos de 500 metros de instituições de ensino.
- Campanhas de Conscientização: O Dia Mundial Sem Tabaco de 2026, com o tema “Desmascarando o apelo – combatendo a dependência de nicotina e tabaco”, foca nas estratégias da indústria para atrair novas gerações.
Novos Avanços no Combate ao Câncer de Pulmão no Brasil
O câncer de pulmão permanece como a principal causa de mortes por câncer no Brasil, com 85% dos casos associados ao tabagismo. Para o triênio 2023-2025, são estimados entre 32 mil e 35 mil novos casos anuais da doença no país.
Rastreamento e Detecção Precoce
Em resposta, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) anunciou em abril de 2026 um estudo inédito para estabelecer diretrizes nacionais de rastreamento do câncer de pulmão no Sistema Único de Saúde (SUS), visando a detecção precoce por meio de tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD). A TCBD pode reduzir a mortalidade em até 20%, e em 38% quando combinada com a cessação do tabagismo.
Tratamentos Inovadores e Apoio ao Fumante
No campo do tratamento, a Anvisa aprovou em março/abril de 2026 o serplulimabe (Olizu) como terapia de primeira linha para pacientes adultos com câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa (CPPC-DE). O SUS também está próximo de incorporar a imunoterapia pembrolizumabe para o tratamento de câncer de pulmão, com consulta pública aberta até 8 de junho de 2026.
A procura por tratamento voluntário para tabagismo no SUS cresceu 95% entre 2022 e 2025, atingindo 2,5 milhões de pessoas em 2025, com a oferta de gomas, pastilhas de nicotina e bupropiona gratuitas.

